quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Adorei isso!!!

“Somos queijo gorgonzola” 
Texto de Maitê Proença

Estamos envelhecendo, estamos envelhecendo, estamos envelhecendo, só ouço isto. No táxi, no trânsito, no banco, só me chamam de senhora. E as amigas falam “estamos envelhecendo”, como quem diz “estamos apodrecendo”. Não estou achando envelhecer esse horror todo. Até agora. Mas a pressão é grande. 
Então, outro dia, divertidamente, fiz uma analogia. O queijo Gorgonzola é um queijo que a maioria das pessoas que eu conheço gosta. Gosta na salada, no pão, com vinho tinto, vinho branco, é um queijo delicioso, de sabor e aroma peculiares, uma invenção italiana, tem status de iguaria com seu sabor sofisticadíssimo, incomparável, vende aos quilos nos supermercados do Leblon, é caro e é podre. É um queijo contaminado por fungos, só fica bom depois que mofa. É um queijo podre de chique. Para ficar gostoso tem que estar no ponto certo da deterioração da matéria. 
O que me possibilita afirmar que não é pelo fato de estar envelhecendo ou apodrecendo ou mofando que devo ser desvalorizada. Saibam: vou envelhecer até o ponto certo, como o Gorgonzola. Se Deus quiser, morrerei no ponto G da deterioração da matéria. Estou me tornando uma iguaria. 
Com vinho tinto sou deliciosa. Aos 50 sou uma mulher para paladares sofisticados. Não sou mais um queijo Minas Frescal, não sou mais uma Ricota, não sou um queijo amarelo qualquer para um lanche sem compromisso. 
Não sou para qualquer um, nem para qualquer um dou bola, agora tenho status, sou um queijo Gorgonzola. 

Obrigada minha filha Verônica, que me enviou este texto interessante. beijos 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Vida Real
DENISE FRAGA - denise-fraga@uol.com.br
Primeira centésima vez
"Quando volto de viagem sou capaz de passar um dia ou dois olhando meu bairro com olhos de turista"

Qual foi a última vez que você fez uma coisa pela primeira vez? No escuro do cinema, um publicitário qualquer querendo me vender alguma coisa me flechou com a frase de efeito.

O filme começou e eu não conseguia me concentrar pensando em qual tinha sido a minha última primeira vez.

Senti certo alívio enumerando coisas banais como o próprio filme, alguém que tinha conhecido, um restaurante novo, um doce, mas minha mente não sossegava querendo ter pulado de paraquedas na semana anterior. Bom publicitário. Mais ou menos: não me lembro do produto.

Na verdade, a frase me incomodou porque veio reforçar minha sensação de que acabamos destinando o melhor de nossa criatividade para o trabalho, muitas vezes deixando nosso prazer sem o devido esforço criativo.

A vida é tão múltipla, e a informação, tão acessível que não há mais desculpas para não termos primeiras vezes todos os dias se quisermos. E nem precisa muito para criarmos pequenas revoluções cotidianas.

Vi no outro dia, por exemplo, a capacidade milagrosa que tem um simples jogo de mímica num comportado almoço de família. A princípio, muitos rejeitaram a ideia, acharam meio ridículo "brincarmos" ali. Minutos depois, estavam irreconhecíveis, subindo no sofá aos berros com os olhos brilhantes.

Einstein falava da importância de manter viva a capacidade de maravilhar-se. "A emoção mais bela que podemos experimentar é o sentimento do mistério."

Por isso é tão bom viajar. Viajar nos devolve o estado de simplesmente existir. Acordamos e começamos a andar em busca de maravilhar-nos. E uma viagem é capaz de aguçar nosso olhar sobre tudo.

Quando volto, sou capaz de passar um dia ou dois olhando meu bairro com olhos de primeira vez, mas o cotidiano implacável não tarda a desfazer o etéreo ineditismo de minha rua. Como manter-se turista de si? Como renovar a curiosidade, a grande esperança de maravilhar-se?

Olho a avidez instalada nos olhos de minha afilhada em seu um ano e meio de vida, encantada com uma simples colher. Olho a colher. Nada. Olho de novo e lembro de minhas aulas de física ótica. Tinha esquecido que eu era capaz de virar de cabeça para baixo no espelho côncavo.

Roubo a colher de sua mãozinha, pensando na pergunta do cinema. Meu caro publicitário, lhe devolvo a questão: qual foi a última vez que você fez de novo pela primeira vez uma coisa que você já fez pela centésima vez?

DENISE FRAGA é atriz e autora de "Travessuras de Mãe" (ed. Globo) e "Retrato Falado" (ed. Globo)

segunda-feira, 26 de agosto de 2013


Jovens, ternos e sábios anciãos
por Enildes Corrêa - omsaraas@terra.com.br

Parece que esta sociedade não permite o envelhecimento natural de sua gente. Até o artista que envelhece é discriminado, muitas vezes, deixado de lado, como se envelhecer fosse um grave defeito e fizesse diminuir a inteligência e a criatividade dos indivíduos. E ao descobrir a sabedoria e os talentos que o passar dos anos pode dar e revelar, considero um tremendo desperdício e, por que não dizer, um ato de ignorância que o mundo ocidental comete ao desprezar e deixar de lado os mais velhos.

Reconheço e valorizo os anciãos. Tenho a abertura, a disposição e a sede de ouvi-los atentamente, pois é uma das formas de adquirir entendimento da vida. Admiro e sinto um carinho especial pelos que souberam viver com sabedoria e relaxamento. E mesmo os que envelheceram carregando as tensões e o peso do tempo passado nas costas, também servem de exemplo se procurarmos compreender o que os impediu de viver com tranquilidade e harmonia.

Constatei certas características comuns entre as pessoas que conseguiram relaxar, mesmo com todos os problemas que tiveram de enfrentar e lidar.

Aceitam e amam a vida. Mantêm uma confiança inabalável na Existência e em si mesmas. Conservam-se lúcidas mentalmente e muito joviais. Enxergam a realidade como ela é, porém não reclamam, mesmo se sofrem. Apreciam compartilhar sua sabedoria e sua amizade. Adotam a postura de estudante, sempre abertas para aprender, mesmo aos 80 anos ou mais. Evitam julgar os outros. Aprenderam a ouvir e a respeitar a voz do coração. Irradiam paz, tranquilidade e contentamento, o que nos faz sentir um grande bem estar ao lado delas. Vivem de forma simples e comum. Não carregam nenhum desejo de ser diferentes de quem são nem tampouco de serem extraordinárias. Aprenderam a se aceitar do jeito que são; ficaram à vontade com o próprio corpo e com seu ser. Deixaram de brigar consigo mesmas e com a vida - simplesmente são o que são e fluem nisso. E mantêm sempre o bom humor.

É uma pena que no Ocidente, atualmente, os jovens não são ensinados de forma efetiva a respeitarem e a valorizar os mais velhos e a sua orientação. Quantas experiências muitos deles gostariam de partilhar... Mas, sem interesse em ouvi-los, oportunidades de aprendizado são desprezadas e, literalmente, jogadas fora. Lições sobre a arte de viver, que poderiam ajudar a muitos a lidarem melhor com os problemas, sem tanto estresse, desespero, sem tanta loucura...

Agradeço a oportunidade de ter convivido com algumas pessoas que envelheceram em paz, com harmonia e sabedoria, sem nostalgia em relação ao passado nem ansiedade quanto ao futuro, engajadas no presente, em estado de contentamento interior. O passar do tempo foi uma ponte para cruzarem as fronteiras que vão além do corpo, além da mente, o que lhes deu coragem para abrir as asas e voar com total confiança em direção ao infinito.

Namastê!

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Porque envelher é viver...
Por Renata Stuart
É o meu aniversário. Sim, não me importo em anunciar: Estou ficando mais velha hoje. Aliás, não só hoje, todos os dias, fico um pouco mais velha. Sim, essa é uma das poucas certezas que temos nessa vida. Todos (os que têm sorte), com o passar dos minutos, horas, dias, semanas, meses, envelhecem. Acontece que apenas nos anos é que a gente se lembra de celebrar isso.


E tudo ocorre de forma sutil, a gente quase nem sente num período de curto prazo. Vamos apenas vivendo e quando nos damos conta: Os anos se passaram. E, então, as marcas do tempo começam a falar. Não falo apenas de rugas ou cabelos brancos, falo das cores, gostos, sentimentos e sensações que ficam para trás, dando lugar a outros, nem melhores, nem piores, mas diferentes. O calendário da vida passa pra todos. Disso, não há como fugir.


Mas, calma, não quero fazer um texto dramático sobre “como-o-tempo-voa” ou “a-idade-chega-para-todos”. Nada disso. Pode continuar ai. Hoje, eu quero brindar a vida. Sim, acho justo! Afinal, há exatamente 22 anos, eu nasci. Num mês frio, durante a madrugada, num parto meio turbulento – sim, pois minha mãe visitou vááários hospitais naquela noite em busca de um médico obstetra – eu vim ao mundo. E, já que estou aqui de passagem, por que não comemorar essa deliciosa viagem que é a vida?


Não entendo bem porque as pessoas têm tanta neura com idade. Envelhecer é algo inerente ao ser humano. Estar velho ainda é estar vivo. Acho que isso deveria ser encarado como só mais uma fase – natural e especial – da vida. Afinal, não é só você que está ficando velho, mas todos da sua geração. E é hora de viver isso juntos, encarar a situação de frente, assumir o tempo de cabeça erguida. Bom, não serei hipócrita. Sinto saudades da minha infância, dos meus quinze anos e sei que, um dia, vou sentir saudade dos 22.  E quando penso que estou próxima dos 30, então?! Sinto um friozinho na barriga como que um misto de tristeza e ansiedade. Tristeza porque sei que terei deixado para trás uma época memorável. A universidade, os amores mal resolvidos, aquela dose de irresponsabilidade, o namoro, as primeiras conquistas, e a famosa “época de arriscar”. Tudo isso vai passar, eu sei. E ansiedade porque sei que há uma outra fase única me aguardando.



Mas é assim que tem que ser. São essas velinhas que sopramos ao longo da vida que nos acrescentam algo como pessoa. São os momentos vividos, experiências adquiridas e escolhas feitas que dão o peso necessário à nossa bagagem. Tenho que prosseguir. E, se para correr atrás dos meus sonhos ainda não alcançados, terei que continuar envelhecendo, que venha o tempo, e que venham muitas velas para eu soprar, pois meus anseios são muitos e tenho planos para um século. Já dizia minha bisavó: “Quem não quer ficar velho, tem que morrer novo”.


É por isso que, hoje, eu só quero sorrir para a vida. Sorrir para todos a minha volta e para mim mesma. Sorrir como alguém que não tem a vida perfeita, mas como alguém que é feliz com o que tem e com o que se tornou. Sorrir como quem é grata pela família inigualável, pelo lar, pelos amigos verdadeiros e pelo amor companheiro. Sorrir pelos abraços, beijos e palavras sinceras. Sorrir pela saúde, pela determinação, pela esperança. Sorrir pelo maior presente que eu podia receber: estar viva! 

http://www.atelierdepalavras.com.br

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Arnaldo Antunes

A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer
A barba vai descendo e os cabelos vão caindo pra cabeça aparecer
Os filhos vão crescendo e o tempo vai dizendo que agora é pra valer
Os outros vão morrendo e a gente aprendendo a esquecer

Não quero morrer pois quero ver
Como será que deve ser envelhecer
Eu quero é viver pra ver qual é
E dizer venha pra o que vai acontecer

Eu quero que o tapete voe
No meio da sala de estar
Eu quero que a panela de pressão pressione
E que a pia comece a pingar
Eu quero que a sirene soe
E me faça levantar do sofá
Eu quero pôr Rita Pavone
No ringtone do meu celular
Eu quero estar no meio do ciclone
Pra poder aproveitar
E quando eu esquecer meu próprio nome
Que me chamem de velho gagá

Pois ser eternamente adolescente nada é mais demodé
Com uns ralos fios de cabelo sobre a testa que não para de crescer
Não sei por que essa gente vira a cara pro presente e esquece de aprender
Que felizmente ou infelizmente sempre o tempo vai correr

Não quero morrer pois quero ver
Como será que deve ser envelhecer
Eu quero é viver pra ver qual é
E dizer venha pra o que vai acontecer

Eu quero que o tapete voe
No meio da sala de estar
Eu quero que a panela de pressão pressione
E que a pia comece a pingar
Eu quero que a sirene soe
E me faça levantar do sofá
Eu quero pôr Rita Pavone
No ringtone do meu celular
Eu quero estar no meio do ciclone
Pra poder aproveitar
E quando eu esquecer meu próprio nome

Que me chamem de velho gagá.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

ENVELHECER COM AMOR
Fátima Abreu

O carinho de anos levam no peito...
Rugas, criaram juntos.
As dores apareceram também...
O desgaste do corpo acontece dia a dia
Chega um ponto, que nada adianta mais:
É viver bem, o que ainda se tem...

As palavras doces combinam com as compotas de frutas...
Ela faz.
Na beira do fogão, sorri
Escuta um barulho na porta da cozinha
É seu velho companheiro que entra por ali.

Senta-se na cadeira, já com a madeira bem gasta pelos anos
Nunca trocaram a mobília, sempre foi a mesma desde o casamento.
Coisas que trouxeram, ali ficaram, e o sentimento nostálgico daquela época, reviviam...
Era uma cumplicidade, de toda uma existência!
Sorriem juntos, choram também...
Caminham de manhã pelo grande quintal,
Molhando flores, "aguando matos", como ele diz
Depois, voltam para a cozinha
Tomam finalmente o café da manhã
Regados a leite ou mingau
Café, pão e queijo.
Entre uma coisa e outra, um beijo...

Carinho, não enruga, como sua pele.
Amor, não sai do coração!
Beijos podem ser dados, ainda que com cabelos grisalhos...
Cumplicidade, fortalece!
Esse é o fim, que cada um de nós, merece.

A colcha de retalhos, ela mesma costurou.
Cobria seu velho companheiro,
Antes de finalmente se deitar
E 'afofar' seu travesseiro.

O cãozinho e o gatinho, também são seus companheiros:
Deitam-se com o casal, tão logo percebam o silêncio da noite.
Aos pés deles, ficam quietinhos...
E na madrugada fria de inverno,
Cada um se esquenta no calor do outro,
A colcha, é apenas um detalhe.

Ler mais: http://www.luso-poemas.net

sexta-feira, 3 de maio de 2013



Me pego olhando para trás.
Vão me chamar de louco e insano. Contraditório aos poetas e intelectuais que brindam o carpe diem, vivendo de presentes para futuros, afogando as vivências passadas.
Eu não. Eu vivo de passado!
Não nele, mas dele. De seus ensinamentos.
Toco minhas próprias feridas, estudo as minhas vitórias.
Sou crítico da minha vida, pois não há outra forma de me assumir, de ser convicto.
Estou buscando o passado. Revendo cada lugar, cada detalhe, cada deslize, cada acerto.
São eles que me formam. Meu passado sou eu.
Não dá pra ser hoje, sem antes ter sido ontem.
Eu venho crescendo e me formando com o tempo.
E tudo que vivi, realizei e presenciei somam o resultado do que tenho construído.
Que bom que caí, que chorei, que me cansei.
Que bom que tive ganhos, acertos, alegrias.
O sabor do hoje está no ontem.
Se hoje eu estou sorrindo, quero aumentar meu riso lembrando que as outras lágrimas se foram.
E quando choro, quero ter a certeza de que sobrevivo. E poder chorar de novo é um sinal de sobrevivência.
Quero sentir o cansaço de minhas pernas lembrando que é resultado das minhas corridas divertidas, e da minha juventude apressada, mas que sempre entendeu a urgência das minhas jovens necessidades.
Quando me pego olhando para trás, afogo em mim mesmo. Releio-me. Descubro-me.
Vou me conhecendo e reconhecendo, pouco a pouco. Investigando meus atos, refletindo os caminhos pelos quais me levei.
Quero saber por onde eu vim, e trazer a certeza do lugar para o qual desejei ir. Pois, se eu não lá chegar, saberei por onde voltar, e como reaproveitar tudo o que já caminhei.
Sou formado de mim mesmo. Dos meus pedaços de vida. Dos meus passados.
O meu hoje, amanhã será ontem. E o que estou sendo agora também me incorporará.
Dizem eles (eles sim, insanos poetas), aos quatro ventos, que eu deveria me focar no hoje, que é mais certo que o futuro, e deixar para trás o passado.
Mas, esquecem-se que hoje eu não seria nada sem o meu ontem.
Não quero esquecer o passado.
Não quero deixar para trás.
Tenho-o carregado comigo, sob pena de sofrer um vazio irreparável de inexistência.
Olhando para trás, aprendo comigo mesmo. Sou eu o meu melhor professor.
Pois eu que conheço o peso de cada riso e cada lágrima na minha formação. Somente eu posso afirmar com certeza, ainda que vulnerável - mas contra mim incontestável, o que me é intimo, o que sou eu.
Olhando para trás, eu me desejo. E me direciono.
Eu vivo mesmo é de passado.

Paulo Henrique Silva Almeida